“O CONTROLE DA DOR RELACIONADA AO CÂNCER É UMA NECESSIDADE HUMANITÁRIA URGENTE”, ESCLARECE A MÉDICA ANESTESISTA VERA AZEVEDO AO APRESENTAR O QUE CLASSIFICA COMO PANDEMIA DE DOR EVITÁVEL

28/12/2022

A apresentação da palestra “O controle da dor no paciente oncológico”, no II Seminário de Cuidados Paliativos de Sergipe, realizado pela Associação dos Amigos da Oncologia – AMO, no final do mês de novembro último em Aracaju, trouxe reflexões importantíssimas sobre a redução e controle da dor como um direito humano universal e mostrou soluções por parte da médica anestesista e professora universitária Vera Azevedo ao estado atual em que ela classifica como pandemia de dor evitável.

Para a especialista em dor, pautada em estudos recentes, não houve melhora no tratamento da dor do câncer em todo o mundo durante um período de 40 anos, pelo simples fato de não se demonstrar redução da prevalência da dor pós tratamento curativo do câncer ou em estágios de doença avançada, mesmo após evidências indicarem melhor manejo farmacológico, novas abordagens e expansão do uso de opióides.

“A dor é um fenômeno complexo e individual, de prevalência importante, que gera impactos físicos, psíquicos, sociais, econômicos e espirituais bastante negativos na vida de qualquer indivíduo. A dor é um dos sintomas mais comuns, debilitantes e temidos pelos pacientes com câncer. E em um paciente com diagnóstico de câncer, a dor é tudo o que ele está passando”, conceitua e explica a médica professora.

A DOR TOTAL NO CÂNCER
A dor total no câncer apresenta uma multidimensionalidade. Quando física, ela pode ser causada pelo próprio câncer, pelo tratamento e/ou por co-morbidades. Quando psicológica, a dor aparece por medo de sofrimento, por ansiedade, por depressão e por experiências passadas de sofrimento. Quando social, pela perda de papéis sociais, perda de trabalho, preocupações financeiras ou com o futuro da família, por dependência. E, quando espiritual, ela se manifesta pelo medo do desconhecido, pela perda da fé, pela raiva do destino e de Deus.

E é diante dessa totalidade que a presença da dor se manifesta de algum modo entre 20 e 87% dos pacientes com diagnóstico de câncer e em 82% dos pacientes com câncer em cuidados paliativos. Nesse sentido, o controle da dor merece prioridade cada vez maior e a sua filosofia deve estar centrada no paciente e baseada na segurança. Os recursos não podem, portanto, ser subutilizados porque o subtratamento no manejo da dor impacta negativamente a qualidade de vida dos pacientes.

“A reflexão que fica é por que tratamos tão mal e pouco os pacientes com dor oncológica? É necessário e urgente cessar a opiofobia e a opiodeignorância para evitar ou, até mesmo, acabar com as barreiras ao tratamento com visões fatalistas, medos do vício e da imunossupressão, perdas da habilidade por parte dos médicos de monitorar a evolução da doença e a máxima de que ‘bons pacientes’ não reclamam”, acredita a anestesista.

AVANÇOS NA MEDICINA
Por entender que pacientes com o mesmo diagnóstico podem sofrer dores diferentes, a Medicina da Dor apresenta hoje uma abordagem multimodal para avaliar o comportamento doloroso e para controlar o sofrimento. Com isso, recursos farmacológicos, radioterapêuticos, anestésicos, neurocirúrgicos, psicológicos, fisioterapêuticos e espirituais são recomendados.

“A Medicina tem avançado bastante e, hoje, há indicações para o tratamento intervencionista da dor para os casos de difícil controle e falhas no tratamento clínico. Podemos elencar aqui os bloqueios neurolíticos, a bomba intratecal, o neuroestimulador medular e o ganglionar, a radiofrequência e a crioanalgesia. E tudo é um bom recurso para o paciente e também para os familiares, a exemplo da acupuntura, da hipnose, da aromaterapia, da massoterapia, da meditação”, explica a médica.

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